Residentes Muros

Em cima do muro (e o mar…) / por Barbara

Viver em cima do muro é um estado de trânsito e espírito que implica em inúmeras possibilidades filosóficas e artísticas. O objetivo dessa proposta é investigar as relações entre o corpo, o muro, a paisagem e o tempo da cidade e encarecer o muro à condição de abrigo ou espaço de produção artística (muro ateliê). Perceber, ainda, o muro como zona de interseção dentro do território urbano, local de onde o artista pode observar o mundo e as coisas ao seu redor, um olhar fora do tempo, à margem do próprio espaço. Acolher o território da prática artística como um campo de incertezas; instigar questionamentos a respeito de situações nas quais muitas vezes o artista é levado a submeter seu processo de criação a um conjunto de estremas que não consideram a natureza subjetiva do próprio fazer artístico, prática já estabelecida dentro do circuito da produção contemporânea.

O começo

A necessidade de permanecer em cima do muro partiu de uma experiência vivida no 1o período do curso de Artes Visuais na Escola de Belas Artes da UFMG. Por subir sempre no muro do Diretório Acadêmico com algumas amigas para conversar, percebi, de repente, que o caráter da conversa se modificava lá em cima, como se a própria troca de paisagem (ou de ponto de vista) tivesse essa potência de alterar a experiência. Me lembro também de uma passagem do livro A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, que falava sobre a vertigem:

O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.

A mesma vertigem por estar no alto também a sinto diante de monumentos ou paisagens grandiosas, como o mar. Me parece que o referencial topológico desaparece e a escala deixa de ser proporcional ao corpo de um homem. Durante cinco dias procurei um muro ideal para habitar, mas não o encontrei entre as casas, as ruas, as praças, áreas comerciais, feiras ou mercados. O muro eleito, ao contrário, era (literalmente) um divisor de águas.

A partir de segunda começo a jornada de habitar o muro todos os dias… Nos próximos posts coloco aqui os desenhos, fotos e textos que vou produzir lá em cima.

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